quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Gato de Botas

Um gato travesso com toda a gataria calçou bota e foi ao rei levar presentes certo dia. Seu dono era bem pobre.

Só tinha um belo olhar e um belo porte.

Mas o Gato de Botas transformou sua vida e sua sorte.

Há muito tempo, um velho moleiro, que tinha trabalhado a vida inteira, chamou seus três filhos e distribuiu entre eles tudo o que possuía.

Entregou o moinho ao mais velho, deu o burro para o segundo e para o terceiro, que era o caçula, sobrou só o gato.

Quando os três filhos ficaram sozinhos, o mais velho combinou viver e trabalhar junto com o segundo irmão.

Ele podia fazer farinha no moinho e o outro iria vendê-la na cidade, com o burro.

Mas o caçula, que só tinha um gato, era melhor que fosse embora com ele, pois para nada servia.

O caçula ficou muito triste, mas concordou:

- Vocês tem razão. O mais que posso fazer com um gato é comer uns bifes e usar a pele para um gorro.

Depois fez sua trouxa e pôs-se a caminho, levando o gato. Não sabia para onde ir. Andou durante muito tempo . . . Quando se cansou, sentou-se num tronco caído, para pensar.

- Meu amo! Poderei ser-lhe mais útil vivo que morto. Arranje-me um par de botas para andar no bosque e um saco. Você vai ver do que eu sou capaz.

O rapaz estranhou o pedido, mas arranjou as botas e o saco para o gato.

- Quero só ver o que um gato pode fazer com isto - pensou.

O gato assim que recebeu o que pedira, saiu depressa, cantando alegremente.

Enquanto caminhava em direção ao bosque, o gato ia fazendo seus planos. Seria difícil imaginar um gato mais esperto do que aquele.

Seu dono nunca poderia adivinhar o que ele pretendia fazer . . .


Chegando ao bosque, o gato pôs no chão o saco bem aberto e dentro jogou uns pedacinhos de pão.

Depois deitou-se e ali perto, fechou os olhos e fingiu de morto. Dali a pouco uma lebre se aproximou e foi comer o pão. Entrou no saco e . . . zás! Num piscar de olho o gato puxou os cordões, fechando o saco, colocou-o ao ombro e correu ao palácio do rei.


- Majestade, venho trazer-vos esta lebre, que meu amo e senhor, o Marquês de Carabá, caçou especialmente para vós.

O rei agradeceu o presente e mandou o cozinheiro preparar a lebre para o jantar.

Nos dias que se seguiram, o gato tornou a levar ao rei vários presentes do Marquês de Carabá: lebres, codornas, coelhos, faisões.


O gato chegava ao palácio e fazendo uma grande reverência, entregava ao rei a caça do dia:

- Majestade, eis aqui duas perdizes, que vos envia meu amo, o marquês de Carabá!


O rei ficava encantado. Estava cada vez mais curioso para conhecer o Marquês de Carabá, que o presenteava tanto.

Os próprios cortesãos perguntavam uns aos outros quem era o tal marquês.

E o rei pensava:

- Se é tão bonito quanto é bom caçador, se é tão rico como esplêndido senhor, da minha filha eu lhe darei a mão e o amor!


Um dia o gato soube que o rei ia dar um passeio de carruagem com a filha.

Levou o amo até um lago que ficava perto da estrada por onde o rei deveria passar e quando a carruagem se aproximava, mandou o dono despir-se e entrar na água.

- Mas, que é isso, gato? Você perdeu o juízo?

- Depressa, meu amo, depressa! Faça o que lhe digo e não se arrependerá!

O rapaz não teve outro jeito senão obedecer. Tirou a roupa e pulou para dentro da água.

A carruagem do rei já estava perto e o gato começou a gritar:

- Socorro! Meu amo está se afogando! Socorro, Majestade!

O rei ordenou que parasse e que seus guardas tirassem o marquês de dentro do rio. O gato agradeceu ao rei e disse:

- O pobre marquês . . . foi atirado ao rio por dois bandidos . . . que lhe roubaram.

O rei então a um de seus servos que corresse ao palácio e trouxesse o traje mais bonito de seu guardaroupa.

O furto da roupa era mais uma invenção do gato. É claro que o Marquês de Carabá não poderia apresentar-se vestido com as roupas pobres de um moleiro . . .


Quando o servo chegou com o belo traje do rei, o rapaz vestiu-se e aproximou-se da carruagem. Inclinou-se numa reverência e agradeceu ao rei por tê-lo salvo.


A princesa pediu ao pai que convidasse o Marquês de Carabá para entrar na carruagem e continuar o passeio com eles.

O rapaz aceitou o convite e o rei vendo que a filha se interessava pelo moço, começou a pensar:

- Um marquês desconhecido! Preciso saber quem ele é e também se é rico.

Enquanto isso o gato correra na frente e já estava longe.


Ao encontrar camponeses trabalhando a terra o gato ordenou em voz grossa:

- Se alguém perguntar de quem são estas terras, digam que pertencem ao Marquês de Carabá. Se não responderem assim, eu os picarei em pedacinhos e farei salsicha de vocês!

Daí a pouco chegou a carruagem do rei. Os camponeses o saudaram e ele perguntou de quem eram aquelas terras.

- São do Marquês de Carabá!

O rei olhou admirado para o rapaz, que disse modestamente:

- É apenas um campo que quase não dá lucro . . . não dá nem para comprar os cartuchos para minha espingarda!


O rei cada vez mais admirado com a riqueza do marquês e não parava de cumprimentá-lo.

O gato entretanto continuara a correr e chegara a um castelo. Com a maior caradepau, bateu à porta:

- Quem é - perguntou o guarda.

- Pode dizer-me de quem é este castelo?



- É de um terrível feiticeiro! - respondeu o guarda. - É melhor você ir andando, porque hoje ele espera hóspedes para um banquete.

O gato insistiu:

- Não posso passar por aqui sem parar para ver seu patrão. Pode anunciar-me: sou o gato do Marquês de Carabá e quero cumprimentá-lo.

- Um gato! Que visita estranha! - disse o feiticeiro, que era muito vaidoso. E mandou-o entrar, pensando que o gato viesse prestar-lhe homenagens.



Aproxime-se! - ordenou o feiticeiro ao gato. - Vejamos se consegue me agradar.

- Que bela barba o senhor tem! - exclamou o gato. - E que barriga tão gorda!

- Bravo, gato! Você sabe fazer elogios. E agora, o que tem para me dizer?

- Ouvi falar que . . . mas não é possível . . . não acredito . . . que o senhor é capaz de se transformar num leão!



- Oh! As más línguas . . . Mas, se o senhor me der uma prova de seu poder . . .

- Claro. Posso me transformar no que quiser - respondeu o feiticeiro.




Um . . . dois . . . três! O feiticeiro se transformou num enorme leão. O gato teve tanto medo, que até suas botas tremeram. Mas acalmou-se e disse:

- Muito bem, muito bem! Mas deve ser fácil virar leão. O senhor é grande e o leão também é . . . Não vejo dificuldade nisso!



- Posso virar qualquer coisa, já disse! Até uma coisinha bem pequena!

- Não é possível - retrucou o gato. - Ainda mais porque agora o senhor já deve estar cansado!

- Sou um feiticeiro e os feiticeiros não se cansam. Pode escolher qualquer bicho e me transformarei nele.



O gato que era muito esperto, pediu ao feiticeiro que virasse um ratinho bem pequeno.

- Isso é fácil - disse o feiticeiro. Fique olhando: um, dois e três! O feiticeiro, grande como era, virou um ratinho.

O gato, não perdeu tempo: num instante pegou o ratinho e comeu. Livre do feiticeiro, o gato percorreu o castelo, dizendo:

- O feiticeiro morreu. O novo dono do castelo é o Marquês de Carabá. Guardas! Servos! Cozinheiros! Preparem-se para receber o Marquês de Carabá e Sua Majestade o rei, em pessoa!



- O feiticeiro morreu. O novo dono do castelo é o Marquês de Carabá. Guardas! Servos! Cozinheiros! Preparem-se para receber o Marquês de Carabá e Sua Majestade o rei, em pessoa!


O banquete que o feiticeiro ia oferecer aos amigos, será servido ao rei, - continuou o gato.

- Depressa! A carruagem real se aproxima!

De fato, exatamente naquele momento a carruagem do rei passava pela frente do castelo. O gato correu à estrada e disse:

- Sua Majestade seja bem vindo ao castelo do Marquês de Carabá!

- Oh! Meu caro marquês, não sabia que o senhor possuía também um castelo!

- Para dizer a verdade, nem eu! - respondeu o rapaz.



- Tem um lindo castelo! - disse-lhe o rei - bem construído e belo!

O moço em confusão, pensava quieto:

- Isso é coisa do gato, por certo!

- É mais lindo que o nosso - disse a princesa!

- Não é meu, doce princesa! Sou um pobre sonhador. Tenho castelos nas nuvens. Mas estes não tem valor.

- Ai, ai, ai, ai . . . disse o rei! Um disse que é do Marquês, outro diz que não é! Ou me falam a verdade ou mando enforcar os dois, antes do cair da tarde.

- Realmente senhor, eu menti - disse o gato - peço perdão majestade. Eu juro que nesse instante, contarei toda a verdade.

- Há muitos e muitos anos atrás, o gigante roubou todas as terras dos avós desse rapaz. Mas graças a minha astúcia, posso-lhe afirmar nesse instante.

Tudo agora é do meu amo. Pois já comi o gigante!

- Viva! Então, Gato de Botas, condecorado serás, porque livraste o meu reino do gigante feiticeiro - disse o rei - Quanto a ti, belo mancebo, pela sua honestidade, a partir desse momento, será marquês de verdade.

- Para alegria de todos, dou a mão de minha filha - completou o rei!


E assim termina a história desse gato que foi de fato o mais esperto que houve.

Gato de Botas que levou sua história a tão bom fim.

Feliz de quem tiver um gato assim!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O menino sol que nunca queria ir dormir



Há muito, muito tempo, há milhões de anos atrás, não existia nada à face da terra… Nada de nada! Nem mesmo pessoas ou animais. Em contrapartida, o céu já era habitado: o Sol, a Lua, as estrelas… Já lá estavam todos. Naqueles tempos, eram ainda muito novos, caprichosos, malucos e, por vezes, mal-educados. Sobretudo o Sol! Passava o tempo a passear os seus raios novos e ofuscantes, todo orgulhoso por ser o mais luminoso, o mais cintilante! Aborrecia toda a gente com os seus raios, o seu calor e a sua luz.
— Pára de brilhar! Fazes-nos mal aos olhos! — diziam as nuvens.
— Apaguem-no! Não consigo fechar os olhos! — resmungava a Lua.
— Ah, estes jovens! Julgam que podem fazer tudo! — protestavam as estrelas mais velhas.
— Nunca estás quieto? — suspirava a Terra, extenuada.
— É sempre de dia! Nem podemos fechar os olhos! — diziam as pequenas estrelas, que, como todas as crianças, precisavam de dormir.
Todos os habitantes do Céu, cansadíssimos, irritados, tristonhos, começaram a pensar no que fazer ao menino Sol para ele brilhar menos: fechá-lo num armário escuro, pôr-lhe graxa preta…
— Isto não pode continuar! — trovejava a Trovoada. — Temos de encontrar uma solução.
E teve logo uma ideia, que contou à Lua e às estrelas.
A Trovoada teve então uma conversa com o menino Sol.
— Solzinho, tivemos uma ideia. Vais brilhar entre nós algumas horas e, depois, ala!… vais brilhar para o outro lado da Terra. Assim, fazes algumas horas connosco e algumas horas com o outro lado. Enquanto lá estiveres, eles divertem-se e nós dormimos. E enquanto estiveres entre nós, são eles a descansar. Assim, não precisas de parar e toda a gente ficará satisfeita!
O menino Sol saltou de alegria face à ideia de ter duas casas e, sobretudo, amigos em todo o lado.
A partir daí passou a haver noite na terra, para grande felicidade dos seus habitantes, que podem assim repousar. Foi nessa altura, aliás, que os homens apareceram, dizendo que, com um pouco de Sol durante o dia e um pouco de escuro à noite, a vida seria bem agradável na Terra.
Sabe-se que, à noite, o Sol nunca chega a desaparecer totalmente, mas que está simplesmente do outro lado da Terra, a viver a sua segunda vida, na sua segunda casa, à espera de voltar. É por isso que nunca se deve ter medo do escuro.